Pássaros e trevas

Você não acredita que seja verdade?

Não, Micth. Para ser franco, não. Não há motivo…

Está acontecendo. Isso não é um motivo?

Mitch Brenner e Sebastian, Os pássaros.

Convivi durante alguns meses com o texto do Livro de regras do Mundo das Trevas, o manual básico que não só contém as regras do novo Sistema Storytelling da White Wolf Publishing como também um breve esboço de um cenário tenebroso e cheio de simbolismo que pode ser explorado por personagens vampiros, lobisomens, magos e… meros mortais como eu e você (para não mencionar as criaturas frankensteinianas do aguardado Promethean). Nunca acompanhei rigorosamente a crono-mitologia do antigo MdT, mas considero-me uma fã mesmo assim, depois de ter traduzido, preparado e revisado tantos títulos da linha para a Devir Livraria e me apaixonado pelo cenário, por sua temática e maturidade. Como “fã”, acostumei-me a encontrar nos manuais básicos e suplementos uma série de referências literárias e cinematográficas, imagens que inspiraram os autores durante o desenvolvimento do jogo e eram compartilhadas com os Narradores que quisessem transformar suas crônicas em verdadeiras experiências narrativas, e não na versão oral e desestruturada de um videogame de ação. Para minha surpresa, o manual básico do novo MdT abstém-se de citar essas fontes valiosas, apesar do prólogo instigador e da magnífica introdução, que traz algumas histórias assustadoras.

E foi assim que me vi à procura de uma imagem que traduzisse “numa só tacada” o cenário e a atmosfera desse mundo de trevas. Cheguei a essa imagem-síntese pelo caminho de Einstein: parei de pensar no assunto. Um belo dia, quando Carlos Eduardo “Caco” Lourenço (a culpa é sempre dele) me perguntou a que filme poderíamos comparar o âmago do novo MdT, eu respondi imediatamente: Os pássaros. Pareceu-me tão evidente e simples na ocasião. Coisas inexplicáveis acontecem e são assustadoras justamente porque não têm explicação. O sobrenatural que impregna o MdT deve permanecer tão inexplicável quanto os ataques de corvos e gaivotas no filme de Hitchcock.

Os pássaros é um filme de 1963, inspirado de leve num conto da escritora inglesa Daphne Du Maurier. Melanie Daniels, uma socialite mimada e famosa trocista, conhece o advogado Mitch Brenner numa loja de animais em São Francisco, mas é ele quem acaba pregando nela uma peça. Decidida a ir à forra, embora da maneira mais coquete possível, Melanie segue Mitch até a cidadezinha de Bodega Bay, onde vivem a mãe e a irmã caçula do advogado. Melanie é atacada por uma gaivota e, depois disso, novos ataques se sucedem, envolvendo um número cada vez maior de pássaros e de vítimas. O brilhantismo do filme é algo difícil de se apreciar hoje em dia, depois de inúmeros diretores terem copiado e até banalizado os ângulos de câmera e a montagem de Hitchcock, mas alguns pormenores ainda são ousados e deslumbrantes. A ausência de trilha sonora, por exemplo, que abafaria os sons produzidos pelos pássaros, foi uma escolha audaciosa. Sem o suporte da música emotiva, Hitchcock é obrigado a inspirar o pavor com silêncios e pires quebrados, monótonas canções infantis e corvos no playground.

Hitchcock chegou a afirmar que Os pássaros talvez tenha sido o filme mais aterrador que ele já fez. Lembro-me muito bem da primeira vez que assisti ao filme, no conforto da sala de estar de um amigo que ostenta o imponente título de dramaturgo, e a sinceridade me obriga a admitir que não fui abalada pelas cenas de suspense e terror. Será que os efeitos especiais, grandes inovações na época, não foram capazes de convencer alguém como eu, que nasceu e cresceu na era do cromaqui, da computação gráfica e da captura de movimento? Mas, se essa fosse a resposta, eu não teria me entediado com A casa da colina, e A bruxa de Blair jamais teria me deixado pregada à cadeira do cinema com o coração na garganta.

Não, minha indiferença em relação a Os pássaros tinha outro motivo. Eu havia procurado o tempo todo, enquanto assistia ao filme, uma explicação razoável para a súbita invasão dos pássaros (se não racional, ao menos metafórica). O ataque seria um estranho fenômeno natural ou uma espécie de manifestação psíquica do inconsciente tumultuado da mãe de Mitch, que temia acima de tudo ser abandonada pelo filho? Em meu afã de racionalizar a trama, eu havia me insensibilizado ao horror do inexplicável. Tentando desesperadamente entender o filme, talvez para impressionar meu amigo dramaturgo, eu havia me negado a possibilidade de realmente apreciar a obra.

Parece que essa mesma insensibilização acometeu a maioria dos jogadores do antigo Mundo das Trevas. O cenário já não tinha mais mistérios. Para tudo havia uma explicação, os vampiros descendiam de Caim, os lobisomens foram criados por Gaia, todas as criaturas sobrenaturais tinham um destino pré-determinado. Mike Tinney, da White Wolf, chegou a comentar com Douglas Reis, da Devir Livraria, que os fãs do MdT se sentiam muito à vontade no cenário, conheciam-no como às palmas das próprias mãos. Era hora de mudar e apresentar algo novo, desconhecido e INEXPLICÁVEL.

O novo Mundo das Trevas é todo feito de insinuações, pontos de vista, palpites, possibilidades. Não espere digressões aprofundadas sobre cada criatura e facção. O texto produz imagens sombrias, enigmáticas, trata mais da atmosfera do que do cenário propriamente dito. Ao ler e reler certos parágrafos, ficamos com a sensação de que entendemos muito pouco, mas vislumbramos muitas coisas, escondidas nos cantos escuros. Ao jogar, confie no Narrador e aceite o mistério, não peça explicações. Ao narrar, não explique nada nem aos jogadores nem a si mesmo. Não perca a oportunidade de apreciar esse novo cenário e de se espantar com o inexplicável. Não faça o que eu fiz com Os pássaros. Está acontecendo, já não é o bastante?

Em tempo: Para escrever este artigo, acabei reassistindo ao filme e descobri que, com a expectativa correta, até a racionalização pode ser uma fonte copiosa de terror (os teóricos da conspiração que o digam!). Depois do ataque dos corvos à escola de Bodega Bay, durante a discussão no restaurante, alguém defende a idéia de exterminar todas as aves da Terra. A ornitóloga amadora afirma ser isso impossível, pois estima-se que existam mais de quinhentos bilhões de aves no mundo. Se houvesse uma guerra entre os pássaros e a humanidade, nós não teríamos a menor chance. Ela é a voz da razão nessa cena, pontuada pelas repetidas exclamações do homem bêbado de que eles estariam presenciando o fim do mundo. Mas é a lógica matemática da ornitóloga que dá à cena final um tom quase apocalíptico. Uuuh!

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