Alfarrabista de citações

Publicado no Recado RPG Online, por ocasião do lançamento do Livro de regras do Mundo das Trevas.
Na solidão contemplativa do escritório, ao som de Faith and the Muse e do teclado de letras apagadas, com uma pilha de livros da linha Mundo das Trevas a meu lado e um ou dois deles, abertos, disputando o espaço exíguo entre o monitor e o organizador de escrivaninha, eu me flagro admirada com a concisão e a pungência dos textos ficcionais que preenchem essas obras. Para os tradutores, essas qualidades representam um desafio e tanto, pois a economia narrativa às vezes transforma as palavras e confere-lhes novos e estranhos sentidos.

O que é economia narrativa? Bem, em poucas palavras, é a capacidade de sintetizar num texto breve não só um enredo completo, da introdução ao desfecho, como também uma atmosfera. Um dos meus exemplos favoritos pode ser encontrado à página 80 do Livro de regras do Mundo das Trevas, que a Devir Livraria lançou recentemente:

Intimidação

Susan voltou para o apartamento branca como cera. Carter tirou os olhos do computador e levantou-se de um salto, com os olhos arregalados de preocupação.

— O que foi? O que aconteceu?

Ela mostrou uma bala de fuzil e um pequeno pedaço de papel. A mensagem tinha uma única frase:

“Balas custam uma ninharia.”

Kapow! O texto nocauteia o leitor com a idéia clara de intimidação e a atmosfera paranóica em meras 53 palavras.

Muitas vezes, para proporcionar essa concisão, os autores usam uma estratégia muito parecida com aquelas bonequinhas russas de vários tamanhos que se encaixam perfeitamente umas dentro das outras: escolhem palavras ou expressões que carregam consigo uma série de referências culturais. As citações literárias, cinematográficas e musicais estão entre as mais utilizadas. É aí que talvez se encontre a maior diversão (e também a grande dor de cabeça) dos tradutores, pois é preciso procurar essas referências, destrinchá-las, compreendê-las e, em seguida, encontrar um equivalente na língua de destino que consiga transmitir o mesmo enredo e a mesma atmosfera, e de preferência com a mesma economia.

Obviamente, nem sempre é possível achar a solução perfeita e algo acaba se perdendo na tradução, em maior ou menor grau. É nesses momentos que as notas de rodapé, as famigeradas “N. do T.”, vêm em socorro do tradutor, mas a sina de quem traduz manuais de RPG é não encontrar rodapé suficiente em meio ao grande volume de texto e à arte esplendorosa desses livros para as explicações mais demoradas.

No caso do Livro de regras do Mundo das Trevas, as citações que fazem toda a diferença para a apreensão de uma certa atmosfera se encontram no prólogo e na introdução. Vou me aproveitar um pouquinho do espaço proporcionado pelo Recado para compartilhar com os leitores algumas das referências que encontrei no prólogo, e espero que estas informações ajudem vocês a descobrir outros significados embutidos nos textos.

No prólogo, o documento redigido por Janet Archer e recuperado por K. S. Delburton apresenta rabiscos e frases inexplicáveis, de origem desconhecida. Na página 4, por exemplo, temos:

Alta montanha acima,

vale íngreme abaixo.

Vocês logo notarão que “Alta montanha acima” é lido de baixo para cima, acontecendo o inverso como “vale íngreme abaixo”, o que demonstra um certo espírito poético ou brincalhão. No original, em língua inglesa, temos:

Up the airy mountain,

Down the rushing glen.

São os dois primeiros versos de “Up the airy moutain, / down the rushing glen. / We dare not go a hunting / for fear of little men.” (Alta montanha acima / vale íngreme abaixo. / Não ousamos sair para caçar / por temermos os homenzinhos.) A citação remete-nos ao filme A fantástica fábrica de chocolate, de 1971, dirigido por Mel Stuart, com roteiro do próprio Roald Dahl, autor do livro infantil original. O funileiro ambulante que interpela Charlie Bucket nos portões da fábrica de Willy Wonka começa dessa maneira sua sinistra observação sobre o prédio, acrescentando em seguida que nunca se viu ninguém entrar nem sair dali. Os versos foram retirados do poema “The Fairies” (As fadas), do irlandês William Allingham. O original é ligeiramente diferente (rushy glen, e não rushing glen), mas a idéia fundamental tanto no poema quanto na citação do funileiro é a mesma: tudo aquilo que é mágico e inexplicável inspira o medo.

Na página 6, repete-se quatro vezes a frase “o balde está furado” (“there’s a hole in the bucket”). A hole in the bucket é uma canção do programa infantil Sesame Street (Vila Sésamo, no Brasil). Trata-se de um dueto no qual um casal, Henry e Liza, discute o que fazer para consertar um balde furado. A canção tem início com Henry, que informa Liza de que o balde tem um furo (“There\’s a hole in the bucket, dear Liza, dear Liza, there\’s a hole in the bucket, dear Liza, a hole.”). Ela sugere que Henry o conserte, e este pergunta com o quê. Com palha, ela responde. Ele rebate, dizendo que os ramos da palha são muito longos. O dueto prossegue, com Liza sempre propondo soluções e Henry sempre encontrando novos problemas. É preciso cortar a palha com a machadinha, que precisa ser afiada com uma pedra, que precisa ser umedecida com água e que só pode ser carregada no balde, que está furado. Quando o paradoxo se completa, Liza abandona o marido e vai para a casa da mãe, o que provavelmente era a intenção de Henry desde o início.

Emoldurando a página 7 temos: “Todos os cavalos do rei e todos os cavaleiros do rei e tudo o que é hoje e tudo o que se foi e tudo o que está por vir e tudo o que existe sob o sol.” O texto original em inglês é uma colagem. De um lado temos “All the king’s horses and all the king’s men”, que faz parte de Humpty Dumpty, uma espécie de canção de ninar inglesa, revisitada por Lewis Carrol no capítulo sexto de Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Já o trecho “all that is now and all that is gone and all that’s to come and everything under the sun” pertence à canção Eclipse, do álbum Dark side of the moon, da banda Pink Floyd.

Deixei por último uma pequena citação na página 9, que por si só é um exemplo surpreendente de economia narrativa. A frase “Uma gaiola em busca de um pássaro” parece ter sido extraída de um conto de Kafka que tem ao todo — pasmem! — oito palavras e é considerado um dos menores contos já escritos:

Uma gaiola saiu em busca de um pássaro.

Se vocês quiserem contribuir para esta pequena coleção de citações e outras referências culturais encontradas em livros de RPG (que não precisam se limitar à linha Mundo das Trevas), basta enviar seus achados para o email mdtrevas@devir.com.br.

Até a próxima.

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