Feliniana

Publicado: 21 21UTC julho 21UTC 2011 em Contos
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(Just for fun)

Fitei a janela com olhos sonolentos. O vidro tinha reflexos coloridos, decompondo a luz da manhã. Creio que movi o braço esquerdo à procura do relógio, e, nesse momento, percebi não estar sozinha.

Senti medo e deixei meu braço parado no ar, esquecido. A frialdade causada pelo contato daquilo que me fazia companhia penetrava meu corpo como um cheiro ruim. Comecei a arfar, o ar me faltava. O braço estendido pesava e já era possível sentir um certo enformigamento nas pontas dos dedos. Cerrei os olhos, fazendo a imagem da janela desaparecer, tentando concentrar alguns restos da coragem que nunca tive para recolher o membro.

Tentei lembrar-me de quando havia sido a última vez. A época parecia distante; no entanto, a recordação era vívida o suficiente para me assustar. Como ele mesmo diria, aparentemente eu ainda não havia me acostumado.

Respirei profundamente. O ar que ganhou minhas narinas trouxe consigo o odor característico da presença dele. Tossi, a espera de que isso pudesse evitar que o ar me contaminasse. Ele certamente riria de mim. Por alguns instantes agucei os sentidos e não captei outros sinais. Nenhum som de voz ou de passos leves. Então, virei-me e abri os olhos. Não pude evitar o grito.

Arana acordou. Ouvi seu choro delicado no quarto contíguo, seus pezinhos alcançando o chão e levando-a até a porta. Saltei da cama e consegui surpreendê-la no corredor, a caminho de meu quarto. Abracei-a e a trouxe para meu colo.

As lembranças retornaram, uma após a outra, e passavam por mim lentas como as noites de dezembro. As imagens sucediam-se, refazendo minha história naqueles últimos cinco anos. Eu não queria recordar; a lembrança poderia trazer de volta aqueles dias de insegurança e fuga.

Enquanto este conflito interno se arrefecia, meu corpo executava o ritual matutino, guiado por reflexos adquiridos durante anos de rotina. Quando, por fim, retomei o controle de meus atos, Arana bebia um grande copo de leite quente e o choro já havia cedido.

Havia pouco tempo, era necessário pensar e agir rápido. Eu sabia que ele não voltaria antes do anoitecer, mas a polícia poderia ser mais breve, e, naquela situação, não me dariam crédito. Instruí Arana para que permanecesse na sala e retornei a meu quarto.

Era um homem de meia-idade, talvez um executivo, o que significava que logo dariam pela ausência dele. Tinha uma das pernas visivelmente partida e a garganta havia sido arrancada.

Tentei não olhar muito para a figura em sangue sobre minha cama. Apanhei uma velha mochila onde enfiei algumas roupas de Arana e todo o dinheiro que possuíamos. Saí o mais rápido possível do quarto porque o ar já se tornara pestilento. Voltei à cozinha e revirei o pequeno armário-despensa. Ao encontrar a caixa de tampa de veludo negro, mais lembranças me atingiram, agora mais antigas, quase saudosas. Hesitei, pela primeira vez naquela manhã, antes de forçar o fecho de madrepérola. Retirei o punhal de seu nicho e observei a lâmina, o reflexo da luz sobre ela. Por um momento senti, irrefreável, o desejo de mudar meu destino, embainhando a pequena arma, não em seu estojo, mas na pele macia e manchada daquele miserável assassino. Contudo, foi só por um momento.

Devolvi o punhal a sua bainha e amarrei-a em minha perna. Era como retornar ao útero materno. Comecei a perceber que minha existência era apenas o passado, o tempo antes da fuga, aquilo que eu mais quisera esquecer. Ouvi vozes vindas da rua. Aproximei-me da janela para verificar que várias pessoas estavam a minha porta. O maldito havia deixado um rastro de sangue.

Era algo novo, totalmente diferente das outras vezes. Durante muito tempo procurei entender sua mente confusa, sempre dividida pela estranha forma de vida que lhe fora imposta. Ele não era cruel ou sádico, nem psicopata. Sua natureza, ora selvagem e ora racional, misturava conceitos, pensamentos e instintos. Às vezes, quando ele se sentia grato, amado e compreendido, expressava-se da melhor maneira que podia, trazendo estranhos presentes (jamais dominara bem a comunicação verbal). Trazia-me a caça. As presas variavam segundo a intensidade de sua gratidão. Um roedor por um afago; um cervo por um pouco de amor. Até o dia em que trouxe um homem muito ferido, mas ainda vivo (aparentemente, ele reconhecera uma certa semelhança e respeitara a vítima), naquela noite em que se sentira particularmente feliz. Ironicamente, eu causara a desgraça, pois havia dito a ele que comemorávamos nosso aniversário.

E agora, aquele cadáver em minha cama, depois de tanto tempo. Depois da fuga. Em minha mente, os pensamentos cortavam-se uns aos outros e eu tentava emendá-los, costurá-los, para formar numa manta de retalhos um raciocínio inteligível. Repentinamente, atinei com o propósito do presente. Era mais que um aviso, era o início de um plano de vingança, a punição por minha fuga. A presa fora escolhida cuidadosamente. Senti seus olhos amarelos fixando-se no homem gordo e velho que saía do elevador, no estacionamento quase vazio de algum prédio de escritórios. Os músculos contraídos para o salto, a adrenalina estourando-lhe as veias. O grito de horror da vítima e sua corrida inútil pelo pátio escuro. A perseguição, a tíbia se partindo com o impacto do golpe, a queda. A escalada rápida, carregando o corpo inconsciente, escapando por qualquer saída sem vigias. Ali certamente não haveria vestígios. Mas também pude vê-lo, próximo à casa, carregando um corpo morto, manchando o passeio.

Não fora o animal, e sim o homem dentro dele quem planejara cada detalhe. Um gosto amargo de medo escureceu meus olhos quando percebi sua intenção. Ele sabia que eu teria de fugir da civilização que até então havia sido meu santuário. Restaria apenas voltar à origem que eu negava e implorar proteção ao mundo onde cresci e que tentei deixar isolado no passado: a Interface.

E Arana? Ele teria visto a menina? No quarto dela descobri pegadas formando círculos em volta da cama. Os passos haviam sido curtos, apressados, agitados, surpresos. Alguns dias depois do desagradável presente de aniversário eu descobrira a gravidez e decidira abandonar aquela vida dupla e sobressaltada. Sim, meu caro! Você é pai. Uma paternidade inconsciente que deve ter causado tremenda perturbação ao ser descoberta. Nada no quarto revelava qual fora a reação dele, não com a precisão necessária. Apenas o odor almiscarado impregnando o tapete.

Sirenes. Pela janela vi duas viaturas da polícia freando estupidamente perante o aglomerado de vizinhos. Prendi Arana a meu peito, apanhei a mochila e saí pela porta dos fundos. Os policiais forçavam a entrada principal. Ouvi ruído nos corredores de acesso ao gramado, nas laterais da casa. Eu não conseguiria alcançar o muro antes que me avistassem e o pânico começava a me atingir. Eu precisava apenas de concentração e de uma idéia salvadora.

O telhado me sorriu com a resposta. Subi na churrasqueira e tentei alcançar um dos caibros. A distância era grande para meus braços e tive de saltar. Aproveitei-me do impulso conseguido para ganhar mais forças e dar uma volta de 180 graus sobre o caibro, atingindo, por fim, o telhado. O peso de Arana havia exigido um esforço extra; por um segundo achei que não conseguiríamos. A mochila, que durante a acrobacia pendia de meu ombro, escorregou pelo braço e meu movimento involuntário para segurá-la tirou-me o equilíbrio. Soltei a mochila e joguei-me de costas, impedindo que Arana e eu caíssemos. Algumas pessoas já estavam a meio caminho do gramado; eu já as sentia espionando pelas janelas. Era tarde para recuperar a mochila.

Arana, que até aquele momento mantivera-se estranhamente calada, finalmente se manifestou. Contei-lhe uma estória absurda sobre uma brincadeira nova. Gato no telhado, Arana. Tem que ficar quietinha, estamos caçando ratos.

Os policiais vasculhavam a casa enquanto eu calculava a distância entre o telhado vizinho e o ponto onde estávamos. Os intrusos encontraram a mochila, e o burburinho, aumentado pelo achado, atraiu a atenção dos últimos curiosos do corredor. Eu não poderia correr a fim de ganhar impulso para o salto e Arana tolhia meus movimentos. Olhei toda a extensão do telhado à procura de uma solução, mas nada parecia longo e forte o suficiente para a travessia. Meu ânimo cedia ao desespero, eu me sentia mais impotente a cada segundo. Creio que foi nesse momento que Arana sussurrou: o rato!

Saltitando com rapidez entre as telhas da casa vizinha, algumas delas soltas, um minúsculo filhote negro parecia perdido e ofuscado pelo sol. Fazia o mesmo percurso, ora aproximando-se, ora afastando-se, passando sobre obstáculos regularmente espaçados. Os degraus de uma escada de madeira. Soltei Arana e transformei as tiras acolchoadas do carregador numa pequena corda, na qual amarrei o punhal. As chances de conseguir trazer a escada para o vão sobre o corredor eram poucas, mas eram únicas. Lembro-me de ter fechado os olhos, logo depois de mirar o degrau roliço mais próximo. Atirei a arma com força mal calculada e acredito que a Sorte interveio para fazê-la prender-se à escada pelo cabo em crucifixo.

Quando o corpo foi encontrado, Arana e eu descíamos pela cerca viva da casa vizinha e ganhávamos a rua. O policial na viatura não nos viu até chegarmos à esquina. Como uma mulher de mãos dadas a uma criança, caminhando tranqüilamente numa manhã de sábado, poderia gerar suspeitas?

Fitei a janela com olhos sonolentos. O vidro tinha reflexos coloridos, decompondo a luz da manhã. Creio que movi o braço esquerdo à procura do relógio, e, nesse momento, percebi não estar sozinha.

Senti medo e deixei meu braço parado no ar, esquecido. A frialdade causada pelo contato daquilo que me fazia companhia penetrava meu corpo como um cheiro ruim. Comecei a arfar, o ar me faltava. O braço estendido pesava e já era possível sentir um certo enformigamento nas pontas dos dedos. Cerrei os olhos, fazendo a imagem da janela desaparecer, tentando concentrar alguns restos da coragem que nunca tive para recolher o membro.

Tentei lembrar-me de quando havia sido a última vez. A época parecia distante; no entanto, a recordação era vívida o suficiente para me assustar. Como ele mesmo diria, aparentemente eu ainda não havia me acostumado.

Respirei profundamente. O ar que ganhou minhas narinas trouxe consigo o odor característico da presença dele. Tossi, a espera de que isso pudesse evitar que o ar me contaminasse. Ele certamente riria de mim. Por alguns instantes agucei os sentidos e não captei outros sinais. Nenhum som de voz ou de passos leves. Então, virei-me e abri os olhos. Não pude evitar o grito.

Arana acordou. Ouvi seu choro delicado no quarto contíguo, seus pezinhos alcançando o chão e levando-a até a porta. Saltei da cama e consegui surpreendê-la no corredor, a caminho de meu quarto. Abracei-a e a trouxe para meu colo.

As lembranças retornaram, uma após a outra, e passavam por mim lentas como as noites de dezembro. As imagens sucediam-se, refazendo minha história naqueles últimos cinco anos. Eu não queria recordar; a lembrança poderia trazer de volta aqueles dias de insegurança e fuga.

Enquanto este conflito interno se arrefecia, meu corpo executava o ritual matutino, guiado por reflexos adquiridos durante anos de rotina. Quando, por fim, retomei o controle de meus atos, Arana bebia um grande copo de leite quente e o choro já havia cedido.

Havia pouco tempo, era necessário pensar e agir rápido. Eu sabia que ele não voltaria antes do anoitecer, mas a polícia poderia ser mais breve, e, naquela situação, não me dariam crédito. Instruí Arana para que permanecesse na sala e retornei a meu quarto.

Era um homem de meia-idade, talvez um executivo, o que significava que logo dariam pela ausência dele. Tinha uma das pernas visivelmente partida e a garganta havia sido arrancada.

Tentei não olhar muito para a figura em sangue sobre minha cama. Apanhei uma velha mochila onde enfiei algumas roupas de Arana e todo o dinheiro que possuíamos. Saí o mais rápido possível do quarto porque o ar já se tornara pestilento. Voltei à cozinha e revirei o pequeno armário-despensa. Ao encontrar a caixa de tampa de veludo negro, mais lembranças me atingiram, agora mais antigas, quase saudosas. Hesitei, pela primeira vez naquela manhã, antes de forçar o fecho de madrepérola. Retirei o punhal de seu nicho e observei a lâmina, o reflexo da luz sobre ela. Por um momento senti, irrefreável, o desejo de mudar meu destino, embainhando a pequena arma, não em seu estojo, mas na pele macia e manchada daquele miserável assassino. Contudo, foi só por um momento.

Devolvi o punhal a sua bainha e amarrei-a em minha perna. Era como retornar ao útero materno. Comecei a perceber que minha existência era apenas o passado, o tempo antes da fuga, aquilo que eu mais quisera esquecer. Ouvi vozes vindas da rua. Aproximei-me da janela para verificar que várias pessoas estavam a minha porta. O maldito havia deixado um rastro de sangue.

Era algo novo, totalmente diferente das outras vezes. Durante muito tempo procurei entender sua mente confusa, sempre dividida pela estranha forma de vida que lhe fora imposta. Ele não era cruel ou sádico, nem psicopata. Sua natureza, ora selvagem e ora racional, misturava conceitos, pensamentos e instintos. Às vezes, quando ele se sentia grato, amado e compreendido, expressava-se da melhor maneira que podia, trazendo estranhos presentes (jamais dominara bem a comunicação verbal). Trazia-me a caça. As presas variavam segundo a intensidade de sua gratidão. Um roedor por um afago; um cervo por um pouco de amor. Até o dia em que trouxe um homem muito ferido, mas ainda vivo (aparentemente, ele reconhecera uma certa semelhança e respeitara a vítima), naquela noite em que se sentira particularmente feliz. Ironicamente, eu causara a desgraça, pois havia dito a ele que comemorávamos nosso aniversário.

E agora, aquele cadáver em minha cama, depois de tanto tempo. Depois da fuga. Em minha mente, os pensamentos cortavam-se uns aos outros e eu tentava emendá-los, costurá-los, para formar numa manta de retalhos um raciocínio inteligível. Repentinamente, atinei com o propósito do presente. Era mais que um aviso, era o início de um plano de vingança, a punição por minha fuga. A presa fora escolhida cuidadosamente. Senti seus olhos amarelos fixando-se no homem gordo e velho que saía do elevador, no estacionamento quase vazio de algum prédio de escritórios. Os músculos contraídos para o salto, a adrenalina estourando-lhe as veias. O grito de horror da vítima e sua corrida inútil pelo pátio escuro. A perseguição, a tíbia se partindo com o impacto do golpe, a queda. A escalada rápida, carregando o corpo inconsciente, escapando por qualquer saída sem vigias. Ali certamente não haveria vestígios. Mas também pude vê-lo, próximo à casa, carregando um corpo morto, manchando o passeio.

Não fora o animal, e sim o homem dentro dele quem planejara cada detalhe. Um gosto amargo de medo escureceu meus olhos quando percebi sua intenção. Ele sabia que eu teria de fugir da civilização que até então havia sido meu santuário. Restaria apenas voltar à origem que eu negava e implorar proteção ao mundo onde cresci e que tentei deixar isolado no passado: a Interface.

E Arana? Ele teria visto a menina? No quarto dela descobri pegadas formando círculos em volta da cama. Os passos haviam sido curtos, apressados, agitados, surpresos. Alguns dias depois do desagradável presente de aniversário eu descobrira a gravidez e decidira abandonar aquela vida dupla e sobressaltada. Sim, meu caro! Você é pai. Uma paternidade inconsciente que deve ter causado tremenda perturbação ao ser descoberta. Nada no quarto revelava qual fora a reação dele, não com a precisão necessária. Apenas o odor almiscarado impregnando o tapete.

Sirenes. Pela janela vi duas viaturas da polícia freando estupidamente perante o aglomerado de vizinhos. Prendi Arana a meu peito, apanhei a mochila e saí pela porta dos fundos. Os policiais forçavam a entrada principal. Ouvi ruído nos corredores de acesso ao gramado, nas laterais da casa. Eu não conseguiria alcançar o muro antes que me avistassem e o pânico começava a me atingir. Eu precisava apenas de concentração e de uma idéia salvadora.

O telhado me sorriu com a resposta. Subi na churrasqueira e tentei alcançar um dos caibros. A distância era grande para meus braços e tive de saltar. Aproveitei-me do impulso conseguido para ganhar mais forças e dar uma volta de 180 graus sobre o caibro, atingindo, por fim, o telhado. O peso de Arana havia exigido um esforço extra; por um segundo achei que não conseguiríamos. A mochila, que durante a acrobacia pendia de meu ombro, escorregou pelo braço e meu movimento involuntário para segurá-la tirou-me o equilíbrio. Soltei a mochila e joguei-me de costas, impedindo que Arana e eu caíssemos. Algumas pessoas já estavam a meio caminho do gramado; eu já as sentia espionando pelas janelas. Era tarde para recuperar a mochila.

Arana, que até aquele momento mantivera-se estranhamente calada, finalmente se manifestou. Contei-lhe uma estória absurda sobre uma brincadeira nova. Gato no telhado, Arana. Tem que ficar quietinha, estamos caçando ratos.

Os policiais vasculhavam a casa enquanto eu calculava a distância entre o telhado vizinho e o ponto onde estávamos. Os intrusos encontraram a mochila, e o burburinho, aumentado pelo achado, atraiu a atenção dos últimos curiosos do corredor. Eu não poderia correr a fim de ganhar impulso para o salto e Arana tolhia meus movimentos. Olhei toda a extensão do telhado à procura de uma solução, mas nada parecia longo e forte o suficiente para a travessia. Meu ânimo cedia ao desespero, eu me sentia mais impotente a cada segundo. Creio que foi nesse momento que Arana sussurrou: o rato!

Saltitando com rapidez entre as telhas da casa vizinha, algumas delas soltas, um minúsculo filhote negro parecia perdido e ofuscado pelo sol. Fazia o mesmo percurso, ora aproximando-se, ora afastando-se, passando sobre obstáculos regularmente espaçados. Os degraus de uma escada de madeira. Soltei Arana e transformei as tiras acolchoadas do carregador numa pequena corda, na qual amarrei o punhal. As chances de conseguir trazer a escada para o vão sobre o corredor eram poucas, mas eram únicas. Lembro-me de ter fechado os olhos, logo depois de mirar o degrau roliço mais próximo. Atirei a arma com força mal calculada e acredito que a Sorte interveio para fazê-la prender-se à escada pelo cabo em crucifixo.

Quando o corpo foi encontrado, Arana e eu descíamos pela cerca viva da casa vizinha e ganhávamos a rua. O policial na viatura não nos viu até chegarmos à esquina. Como uma mulher de mãos dadas a uma criança, caminhando tranqüilamente numa manhã de sábado, poderia gerar suspeitas?

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