(Uma mesma cena. Três pontos de vista. Exercício de foco narrativo.)
A velha
Vinha subindo a rua, escalando a aclividade obscena que a fazia gemer e ofegar. A cabeça grisalha e respeitável afundava entre os pacotes pardos do supermercado. Mas que gente mais munheca pra não dar as sacolinhas de plástico! Olhava, vez em quando, a sua frente, verificando a distância entre seus passos e o ponto de ônibus. Arre, que nunca chega! Mas chega.
Lugar mais estúpido pra plantar ponto de ônibus! Meio longe de tudo, em alto de montanha. Ia chegar em casa toda quebrada pelo esforço. Podia ter ido ao mercadinho do bairro, a uma andadinha de sua porta. Mas ela gostava das lojas grandes, com corredores longos e prolíficos, gôndolas imensas e uma megadiversidade de opções. Milho verde? Latinha amarela, latinha escura, latinha branca. Nomes, marcas, embalagens, cores. Principalmente cores.
A cor vermelha dos cabelos do moleque que pisoteava o canteiro próximo intimidou-a. Estranha liberdade a da criança, rompendo as convenções, o pintinho esguichando urina sem qualquer vergonha de sua exposição. A velha sentiu um calor pudico invadir-lhe o rosto magro e voltou os olhos para outra direção. Manuel também tivera os cabelos ruivos e um jeito safado de bulir com ela. Não, não queria lembrar. Nostalgia era uma palavra desconhecida.
Mãe de Deus! Que horas serão? Olhou em volta, procurando um pulso ornamentado com o precioso aparelho de dividir o tempo. Mocinho! Mocinho! (Será que é surdo?). Chegou mais perto e tocou no braço da criatura. Mocinho, por favor, pode me dizer as horas? A resposta não foi imediata. Antes houve uma hesitação, um olhar atônito, um franzir de sobrancelhas e finalmente um sorriso breve, porém debochado, acompanhando o informe. Nossa, já é tarde! A velha preocupava-se com o ônibus atrasado, a lentidão do percurso. Vou perder a novela!
Sua vida fora desprovida de romance. Uma infância sem sonhos, a puberdade reprimida, a maturidade medíocre. Casara-se, enviuvara. Sem filhos, nem da mocidade nem da velhice. Professora de primeiras letras, uma virgem pecadora, uma alma condenada pelos desejos e salva pelo dízimo da Igreja. A novela é tudo o que importa, porque aquele universo não existe e, por não existir, não causa dor. A dor é um fenômeno, uma síndrome impertinente mas, tantas vezes, não contagiante. Para ela havia apenas a dor auto-infecciosa, egoísta e ávida pela piedade alheia.
Um homem fazia o mesmo percurso suado que meia hora antes envolvera a velhinha em cansaço justo. Andava de cabeça baixa, o corpo inclinado à frente, fazia força para retirar os pés do chão a cada passo. O braço esquerdo pendia, imóvel, enquanto o direito, esticado para trás, estava tenso pelo grande saco de pano que arrastava. O volume do saco movia-se em contorções irregulares, entre ganidos e sussurros roucos.
A velha, assustada com a passagem daquela cena monstruosa, deixou cair um dos pacotes. Com a mão livre persignou-se duas ou três vezes, numa seqüência rápida e adrenérgica. Que diabos havia no saco? Um cão, uma criança ou ambos? De qualquer modo, fora apenas um susto. O homem tinha uma carranca barbuda e maltratada, um ar de violência que só podia inspirar pavor. Afastada a ameaça, tomou novamente o controle dos nervos e viu seu pacote emborcado no chão, a caixa de ovos meio fora, meio úmida e pegajosa. Resmungou que só podia ser urucubaca. Devia ter ido ao mercadinho do bairro, ali tão pertinho de sua porta. Abriu a caixa de ovos para contabilizar o estrago: cinco deles estavam partidos, o rico conteúdo espalhado, impuramente mesclado como aquele homem, nem branco, nem negro, nem… Ai, que lá vem o ônibus! Levantou-se com dificuldade, enfiando alguns ovos inteiros no pacote recém-erguido; correu sobre passos curtos para fazer sinal, com que mão, meu Deus? Ao subir no ônibus, espichou o olho para o ponto. Queria dar adeus a sua caixa de ovos, mas viu somente um rapaz alto chegando e beijando o mocinho a quem perguntara as horas. Na boca. Mundo devasso!
O moleque
Fazer pipi na rua é feio. É o que diria a mãe. Mas a mãe ali não estava para o repreender. Moleque não faz pipi, mija. Moleque faz pose, curvando as costas, ostentando o quadril e o pinto. Olha para baixo, por sobre a barriga, vê a urina regar o canteiro. Mija no mundo para que percebam seu poder. O mundo foi criado para os homens, disse o padre. Então era dele, um homem de oito anos cobrando seus direitos, a começar pelo de urinar onde e quando achasse melhor.
A mãe disse que o padre não é homem. Então que é? Mulher barbada? Já tinha ouvido falar de mulher barbada na televisão. Será que o padre é bicha? A mãe disse pra ele não falar palavrão. Mas bicha é uma palavra pequena: bi-cha. Não sabe bem o que significa. A mãe não quis explicar. O pai, que só vem vez em quando, riu muito das perguntas que ele fez, mas saiu bêbado sem responder qualquer delas.
Olha a velhinha. Ri. Parece a avó, só que não tem os óculos grossos e verdes. A avó é engraçada: anda mal, escuta pior ainda. Reclama quando ele sobe na goiabeira. Ele finge que é tão surdo quanto ela. A avó também não sabe o que é uma bicha. Também não sai de casa, nem faz compras como a velhinha do ponto de ônibus. Onde será que ela mora?
Vê algumas formigas. Agacha-se para ficar bem perto da trilha irrequieta. Esquece a velhinha, a avó, a mãe; do pai mal se lembra. Eu sou uma formiga agora. Tenho seis pernas, uma bunda grande e beijo todos que encontro. Carrego folhas, pedaços de bolacha. Bolacha de chocolate recheada que a gente abre no meio e lambe, lambe… como pirulito, que é bala espetada num palito. A bala vira bola, eu jogo futebol. Driblo o primeiro, o segundo, toco de calcanhar, na tabela recebo de novo, ajeito e chuto! Foi gol! Não, pegou no goleiro!
Levanta a cabeça ao escutar o choro de dor, não do goleiro que lhe atravancou o sonho, mas do estranho fardo que um homem muito alto arrasta rua acima. Tem vontade de seguir aquela figura já distante, saber o que faz o saco estremecer, mas também sente medo. O cheiro forte do homem relembra o pai, em suas noites agressivas. O moleque teme que algum dia o pai derrube a porta de seu quarto, chute-o pra fora da cama e o enfie num saco de pano como aquele. Vamos conhecer a cidade, diria. E, em curta procissão o pai arrastaria o corpo do moleque para que ele conhecesse a superfície áspera de cada pedra, em todas as ruas com calçadas quebradas pelas raízes das árvores.
O moleque estremece, acha as pernas, até então esquecidas a dormir, como patinhas de formiga ainda. E ao encontrá-las, corre rua abaixo, corre para casa, para a mãe. Desculpa, mãezinha, fiz pipi na rua!
A moça
Esperava já havia mais de quinze minutos. Os ônibus passavam, o ruído agudo das freadas vibravam dolorosamente em seus ouvidos. Levava a mão a orelha direita, mexia no brinco único, afagava os cabelos curtos. E esperava. Ele sempre chegava tarde. Ela não se importava muito, alguém precisava contrabalançar sua obsessão pela pontualidade.
Encostada ao poste de madeira que demarcava o ponto de ônibus, ela desceu os olhos pelo declive da rua e encontrou sua atenção presa ao homem alto que se curvava sobre os próprios passos, avançando com vagar em sua direção. Tentava, à distância, adivinhar os traços, as dores, os propósitos da criatura ainda indefinida, ausente, quase fugidia.
Desprendeu-se da imagem sonolenta que fizera do maltrapilho e percebeu algo que se esgueirava por trás dele. Começou a ouvir um choro revolto, inumano. O som aumentava em altura à medida que o homem e seu fardo se aproximavam. Sentiu-se de peito opresso, ligeiramente incomodada com o que antevia. Ainda assim, acompanhou a passagem da figura, fixou os olhos no pulular choroso do saco de pano e admirou a virilidade da cena. Tragou com avidez a face impassível do macho obstinado em executar sua tarefa, lambuzou-se no mel da força dos músculos tensos, dos passos carregados, da escultura rude do peito à mostra.
A força atraía sua primitividade, e ela viu, naquele ato simbólico de arrastar um ser vivo, um reflexo de sua dualidade intrínseca. A mulher ansiava pelo sexo violento, fora de controle, o quase estupro, para que o homem nela se manifestasse. Sentia uma masculinidade adormecida que eventualmente bocejava dentro de seu casulo. Era assim quando parava em frente ao espelho, o torso nu, a observar as espáduas e o torneado dos braços, como quem busca a imagem do atleta. Eram assim as roupas assexuadas, o andar indefinido, o modo de falar e gesticular.
Ouviu os resmungos da velhinha com as compras, a mesma que momentos antes a tomara por um rapaz. Mocinho! Mocinho! E ela rira. Voltava-lhe a frase solta de um amigo sobre sua androginia, sentia-se parte do menino que ganhava a rua em correria. Então, o namorado materializou-se em seus lábios. O gosto era bom. Recompôs-se.