(Um conto de vampiro, sim. Mas é meu vampiro muito particular.)
Um diminuto coágulo. É o que resta. Impotente, apenas observo a mancha ora púrpura, ora carmesim, percorrer uma distância inexistente sobre o nó de meu indicador esquerdo, impulsionada pelo movimento nervoso de minhas mãos ao longo do teclado. E não consigo desviar minha atenção. Sinto, mais do que concluo, que o hematoma não poderia estar ali. Não se… Não se tudo não passasse de um sonho. Claro, devo ter me ferido enquanto dormia. Um sono inquieto possui a estranha habilidade de registrar sua passagem com dores musculares, pequenos ferimentos. E, no entanto, a mancha insiste em negar explicações racionais, como se algo nela fosse irreal. Como se a realidade estivesse destinada a se extinguir sempre que eu abrisse os olhos para este peculiar coágulo.
Minhas próprias palavras parecem querer me confundir. Releio-as com suspeita, pois, pronunciadas em voz alta, não soam como minhas. A escuridão jamais foi um baluarte de realidade. A noite sempre fomentou conspirações do universo fantástico, sempre criou monstros e espalhou temores. E não trato aqui unicamente de referências mitológicas e literárias. Histórias de horror particulares engendravam-se nas sombras do quarto da criança imaginativa que fui. Por que deveria agora a ausência completa de luz inspirar mais segurança do que o mundo palpável do sentido visual? Nossos olhos tocam todos os objetos, afagando-os, tornando-os conhecidos, familiares. É essa a magia da visão e o maior truque do feiticeiro a quem denominamos realidade.
Mais uma vez. Mais uma vez não controlo o que penso e imediatamente escrevo. Tanto esforço para me convencer de que o pequeno ferimento em minha mão é algo corriqueiro e completamente explicável e, contudo, continuo contradizendo-me a cada tentativa. Adiciono mais paradoxos a minha vida, já carregada pelo peso de forçar meu medo da escuridão a conviver com o hábito enraizado de acordar com o final do dia. E, por Deus! Não posso escapar de minha mancha de sangue, como se também este minúsculo coágulo encarnasse o assassinato de um rei.
Método. Preciso de método. Isolar, identificar, classificar. Encontrar um padrão, explicá-lo. Mas lá está o ferimento, revolvendo-se sob minha pele e gritando: “Eu sei o que você teme admitir! Eu estava lá, eu nasci desse encontro!”. Uma vontade demente de fazê-lo calar-se me atinge inesperadamente e tenho de recorrer a inúmeras rédeas para refrear essa besta. Embora… embora eu não possa deixar de reconhecer que da insanidade brote alguma razão. “Eu nasci desse encontro.”
O hematoma não poderia estar ali se tudo não passasse de um sonho. Se eu não me lembrasse com tanta clareza daquela mão bem construída, de traços regulares, segurando-me onipresentemente, pressionando pontos específicos de meu corpo com tamanha virilidade que… Dedos longos, com unhas arredondadas, envolvendo e apertando minha palma semi-aberta, forçando meus dedos a se esticarem numa prece. Ganhe a possessão das mãos de uma mulher e os favores que desejar não serão negados por muito mais tempo. A resistência cede à servidão e a luta é substituída por um implorar mudo de lábios entreabertos.
A memória não me permite seguir adiante. Um amigo costumava me dizer que lembranças dolorosas demais são extirpadas parcial ou completamente, ao que eu rebatia então que meu limiar de dor devia ser alto o bastante para não me poupar da recordação de muitos arrependimentos. Agora, nenhum pensamento me acalenta, pois tenho como certo que a memória a mim negada é de júbilo, e não de agonia.
Inesperadamente, sinto minha face úmida. A mancha de sangue ergue-se juntamente com as costas da mão que a carrega para tocar uma lágrima fugitiva. Choro como se ainda tivesse doze anos e observasse o negror das sombras do quarto avançando em minha direção, procurando sufocar meus protestos inúteis. E meu cérebro se acelera com a alegria do projétil que se aproxima do alvo. Começo a sentir-me quase bêbada, tocada por uma loucura temporária que não cobra impostos pelo uso contínuo. As frases deixam de fazer sentido. Abandono-me à fantasia. Ao terror. Às coortes feéricas das noites invernais. E, mais uma vez em contradição, rezo pelo resgate.
***
A madrugada assume um aspecto diferente agora que todas as manhãs continuam-se num estado perpétuo de sonho. As divisões do dia há muito perderam o significado. As nuances de luz criam essa atmosfera mutável que marca as horas com diferentes sabores. Durante a noite, a escuridão une os minutos e somente os relógios sabem distinguir o tempo. Alguém lembraria das estrelas e de seus compassos, ou da lua e de suas fases divorciadas, mas estou só e para mim apenas um pêndulo teimoso divide a eternidade entre instantes.
Aqui é território noturno e não há sobras de realidade. Não há mesas, nem cadeiras, nem qualquer outro objeto para me fazer tropeçar e me trazer de volta. Cadeiras ou bancos de praça são implacáveis nessa função. Bebedeiras sem precedentes curam-se imediatamente, alucinações deixam-se controlar no momento em que nossos órgãos sensoriais são atropelados pela sólida presença de algo nos suportando. Não aqui. Seja onde for.
Onde. Não estranhamente, onde não tem sentido. Onde não se aplica. E eu me pergunto se isto seria quando em vez de onde. Tolice minha. Nem onde, nem quando. Adiantaria pedir socorro a um novo advérbio? Estou rindo. O riso histérico da mulher que volta à casa para encontrar o tirânico pai com a cabeça atravessada por uma bala suicida. Rio da minha insistência em isolar, identificar, classificar. Encontrar padrões na (des)organização do fantástico. A sanidade escorreu pelas frestas da porta e eu me flagro procurando um advérbio.
Um estremecimento espanta o método, arrastando consigo um suspiro profético. Todas as presenças são previsíveis. Elas se manifestam sempre com arrepios, tremores e suores frios. Uma brisa movendo cortinas numa janela que deveria estar fechada; um sopro gélido penetrando o recinto; a escuridão caindo sobre a vítima paralisada de medo…
Grito com surpresa e dor, o rosto ardendo e marcado por um tapa, provavelmente merecido. Não insulte uma manifestação onírica com um comentário analítico, pois o fantástico exige síntese. Mas eis um pensamento dicotômico que pode angariar-me uma outra advertência. Covarde como sou, rendo a verossimilhança ao impossível, mesmo que tudo não passe de um clichê de cinema.
***
A mandíbula dolorida é o primeiro sinal de que estou acordando. As persianas nem parecem abertas com tão pouca luz invadindo o quarto. O ar carrega um cheiro agradável de terra. Deve estar chovendo, mas não ouço nada. Espreguiço-me à moda dos gatos e noto que o rosto não é a única fonte de desconforto. Estiro-me na cama, fitando o teto, sentindo a pulsação bem vívida em minhas têmporas. Os punhos doem. As pontas dos dedos estão lívidas e sensíveis.
Verifico o relógio e me assusto com o ínfimo espaço percorrido pelos ponteiros, um sinal de que me ausentei por poucos minutos ou então perdi o contato comigo mesma por cerca de vinte e quatro horas. Não tenho nada comigo que possa me indicar a data, portanto, sofrerei um pouco mais antes de descobrir o grau dessa febre.
A mancha de sangue que me recordava de crimes inexistentes agora tem companhia. Presencio a manifestação de novas nódoas, pequenos músculos contraem-se em resposta à súbita ardência provocada por inúmeros cortes superficiais. Minha reação é procurar pela origem física dos ferimentos, como se não fosse estranho esperar encontrar fragmentos de vidro espalhados pela cama. Então, minha face violentada reclama dos maus-tratos, revivendo, para meu benefício, o tapa que cheguei a sentir com tamanha clareza ainda há pouco (ainda há pouco?). E meu corpo se retrai, reflexivamente assustado, muito antes que EU perceba qualquer perigo.
“Sim, tenho medo”, respondo à pergunta muda das mãos sobre minhas espáduas. O lapso entre sensação e entendimento prolonga-se ainda mais até que um sobressalto me revele mais uma vez aquela presença cinematográfica. Sinto a força daquelas mãos comprimindo-se em meus ombros, enviando uma mensagem suficientemente clara: “Não olhe para trás”. Aqueles dedos longos escorrem pelos meus braços, transmitindo um vigor sem humanidade, sem o calor adequado. Mais uma vez experimento a onipresença do contato, mais uma vez tenho minhas mãos dominadas e resignadas a implorar pela rendição.
Palavras incorpóreas formam-se em minha mente, como se uma voz interior, porém alienígena, recitasse litanias de antigos rituais. Incompreensão é minha resposta. “Sacrifica a realidade. Abandona a falsificação dos sentidos. Subverte o método, esquece a classificação.” Eu grito minha impotência, faço alarde de minha necessidade de uma vida normal e real. A voz ri de meus argumentos. “A mediocridade é uma falácia e a existência da vida comum uma impossibilidade. Todos são tocados pela singularidade. O fantástico te envolve e tua idiossincrasia é negá-lo mesmo que o desejes. Estou aqui para guiar-te em teu ritual de passagem, retirar de teus ombros o fardo que o medo da loucura impõe sobre os mortais.”
“Fui apropriado pela realidade como o mito da violência contida na sensualidade, mas minha natureza é bem outra. Eu sou o negro portal do Inferno, a cintilante entrada de Arcádia, sou as misteriosas colunas de Hércules, o limite entre a noção e o imaginário, entre a segurança e o medo. Em mim termina toda a esperança, todo o desejo, e tem início o êxtase. Renuncia.”
“Entrega-te à chama, ao espelho e à adaga, não porque teu destino esteja traçado, mas porque essa é tua singularidade.”
***
Pungente, o odor que acompanha a escuridão me envolve em névoas esmaecidas de vermelho. A morte da última vela é anunciada em todos os cantos obscuros do quarto, e minha sombra perde seus contornos ao crescer em direção às paredes. A moldura da única janela funde-se com a superfície sólida do céu, encoberto por nuvens pintadas de negro. Como um espírito pegajoso, a visão de meu próprio corpo no espelho permanece em minha memória. Os mesmos olhos invisíveis percorrem a linha da lâmina, imaginando-a mais brilhante e salvadora do que a realidade gostaria de me apresentar.
O tremor de minhas mãos interrompe outras sensações, abala a exatidão de meus pensamentos e, num último esforço, tenho apenas certeza de que descrever o que sinto agora é impraticável. Enquanto observo à distância minha racionalidade definhar em convulsões brandas, ouço os passos bêbados de uma percepção visceralmente mística que começa a sentir-se confortável dentro de mim. Devo estar quase em transe. A premência em executar o sacrifício discute com meus piores temores. Atiro-me para a arma; minhas mãos lutam pela bainha, tomadas de um desejo dolorido, ansiosas por um êxtase adiado. Retiro de minha pele dilacerada a essência que em você já se exauriu e com ela escrevo, sem notar a imprecisão dos traços, meu voto de servidão. Minha definição, meu nome, meu único poder, minha declaração de extrema devoção.
Arrisco desviar o olhar para a janela e presencio a noite ganhar vida consciente, mover seus membros estagnados com uivos baixos e agarrar-se à fixidez da abertura na parede. Os braços municionados com a força de legiões de silfos impulsionam o céu noturno para dentro do quarto. Um espasmo de medo sufoca meu grito; quem se esvai em estertores ressonantes são as criaturas arrastadas pela escuridão. O toque da noite é quase frio, temerosamente delicado, mas logo se fortalece num abraço nada feminino. Meus ombros deslocam-se para trás e para cima, os braços pendentes e abandonados, acompanhando o arranque involuntário do torso que procura refúgio longe da materialização alucinógena que agora aquece minhas costas. O calor contorna meu pescoço, espalha-se pelo meu colo e morre em minhas pernas já insensíveis.
Ergo a cabeça em resposta à tua voz, mas fecho os olhos para apreciar melhor o timbre grave, a melodia intrínseca, e me sinto maravilhada ao perceber que as palavras que compõem essa canção constituem também o meu nome. E é mais uma vez o meu nome que, agora revestido de invocação, retira o peso de minhas pálpebras.
Sinto-me explodir contra a parede, mas não consigo decidir se a entidade arremessada ao ar e crucificada em alvenaria pela intensidade do teu olhar é meu corpo ou minha alma. Olhos da cor de madeira antiga mantêm-me suspensa em estacas imaginárias. Minha respiração é atormentada mais por uma ânsia de proximidade do que pela paralisação de meu peito. Num movimento torturantemente calculado, tu caminhas até mim; o vento segue teus passos, fazendo de teus cabelos um manto esvoaçante, e eu me sinto amaldiçoadamente feliz.