A baleia

Publicado: 13 13UTC julho 13UTC 2011 em Contos
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(Mote e glosa.)

Sentou-se no banco verde de musgo, tudo em redor mais quieto e mais úmido agora que chegara ao âmago do jardim.

— Lygia Fagundes Telles, “A mão no ombro”

Havia um jardim com um só banco de concreto, branco e frio, úmido, de uma umidade verdoenga de musgo. Ele sentou-se nesse bloco único — sobras de realidade —, desamarrou os sapatos, despenteou o cabelo, desabotoou a camisa e desligou o marcapasso. Deitou-se e esperou, qualquer coisa, qualquer evento, de olhar fixo nas nuvens cada vez mais brancas, luminosas, próximas.

Sinceramente, ele não se importava com o jardim, nem com suas cores. As plantas eram seres imóveis e indiferentes, crescendo em silêncio, sabe-se lá que planos de poder concretizando, controlando as horas dos pulgões e formigas, paparicando abelhas, desalojando aranhas. Alimentavam pássaros com intenções secretas, apagavam o sol, espalhavam a umidade para que o musgo — outra maldita planta — explodisse em todos os cantos e destruísse a realidade.

Tampouco queria saber dos nichos pululantes de vida animal, essa excrescência que sobrevivia do jardim e levava todos os dias para perto dele sons, odores e luzes coloridas.

Mas ali estava ele, esquecido das abominações do lugar, porque escolhera justamente o jardim e aquele banco gelado que acabava de enrijecer suas costas. Os olhos abertos para as nuvens e para a luz, tão branca, tão forte que mutilava as árvores, essas terríveis árvores de copas geométricas.

Ouviu passos, desses que esmagam folhas secas com delicadeza, vindos de trás, de perto, ali, quase tocando seu ombro. Arriscou uma olhadela de lado e deu com uma menina de camisola bordada. Procurou as feições da garotinha, mas foi incapaz de encontrar qualquer traço, mesmo sabendo e sentindo que estavam lá. Mesmo entendendo que poderia reconhecê-la aonde quer que fosse.

Sentiu que ela sorria. Escutou o que ela dizia, acompanhando os movimentos da boca que podia apenas adivinhar. Vem ver a baleia, vem. Sim, eram essas as palavras, estranhamente nítidas na voz sem precedentes e isenta de individualidade da menina. A baleia, vem ver.

Ela repetia seus versos e saltava do chão ao banco, e deste novamente para o gramado machucado, umas vezes com delicadeza, em outras com ímpeto. Que baleia? Ele era só perguntas e ela só repetia: a baleia. Onde está? No aquário, mudou-se a cantilena da menina. No mar? No aquário, vem ver.

Ele quis observar que baleias não se encontravam em aquários, mas de repente a frase, uma vez articulada, pareceu-lhe tão ilógica que a abortou ainda na boca. A menina já lhe tomara a mão e puxava-lhe os dedos, sempre pedindo atenção para a tal baleia. A voz dela tornava-se estridente e alta, mantendo, no entanto, sua indefinição. Vem comigo até o aquário, vem.

Atravessaram então o jardim de cores pálidas, verde-água, amarelo-palha e salmão. Estavam lá todas as plantas e animais formando um coro com o recital monocórdico da menina. Entraram por alamedas muito brancas, pisaram canteiros, encontraram fontes, molharam os pés na água que forrava os gramados, encheram-se de musgos. Até que pareceu a ele ter deixado o jardim, sem aviso, como se o nada fosse a continuação das árvores.

Nada também definia suas sensações. Cessaram as impressões de sonho, mas ele não havia acordado. Foram-se todos os pensamentos e, com eles, as perguntas. A claridade era tamanha que mal podia afirmar que enxergava. Nenhum som, nem calor, nem cheiros. Eis o que procurava, o vazio total, onde não se está acompanhado nem por si mesmo.

Enfim, livre, isolado de outras formas de vida, purificado do contato asqueroso promovido pelos sentidos. Seu mundo perfeito estava a envolver-lhe o corpo, e no entanto, não podia gozar de suas glórias. Ele não sabia que estava ali.

Subitamente, sentiu a menina a seu lado, agarrada a sua mão. Ela agora tinha um braço estendido, coberto pelas longas mangas da camisola. Os lábios moviam-se, ele sabia, mas o som não lhe chegava inteligível.

Resumiu suas reações readquiridas a um esvaziar do olhar na direção que ela apontava e finalmente entendeu a palavra aquário. E, realmente, existia um aquário de ângulos pronunciados, sem decorações, talvez até sem líquido. Aproximou-se do recipiente como se o vidro fosse seu horizonte e, por sobre a coisa, a imagem de um pequeno objeto flutuante cambaleava junto com seus passos. Quase fusiforme, de cauda achatada e ululante, o objeto-bicho nadava no vazio. A baleia, disse a menina.

Ele chegou mais perto, a ponto de se sentir atravessando o vidro, e focalizou o animal. A cabeça grande, maciça e retangular abriu-se num sorriso denteado. Não, não era uma baleia. Era um cachalote, um maldito cachalote!

(Ele acordou na cama de um hospital, num quarto branco onde a janela segurava vasos de violetas, e a cerâmica deles encobria-se de musgo).

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