(Just for fun)

Fitei a janela com olhos sonolentos. O vidro tinha reflexos coloridos, decompondo a luz da manhã. Creio que movi o braço esquerdo à procura do relógio, e, nesse momento, percebi não estar sozinha.

Senti medo e deixei meu braço parado no ar, esquecido. A frialdade causada pelo contato daquilo que me fazia companhia penetrava meu corpo como um cheiro ruim. Comecei a arfar, o ar me faltava. O braço estendido pesava e já era possível sentir um certo enformigamento nas pontas dos dedos. Cerrei os olhos, fazendo a imagem da janela desaparecer, tentando concentrar alguns restos da coragem que nunca tive para recolher o membro. Leia o resto deste post »

Trilogia

Publicado: 18 18UTC julho 18UTC 2011 em Contos
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(Uma mesma cena. Três pontos de vista. Exercício de foco narrativo.)

A velha

Vinha subindo a rua, escalando a aclividade obscena que a fazia gemer e ofegar. A cabeça grisalha e respeitável afundava entre os pacotes pardos do supermercado. Mas que gente mais munheca pra não dar as sacolinhas de plástico! Olhava, vez em quando, a sua frente, verificando a distância entre seus passos e o ponto de ônibus. Arre, que nunca chega! Mas chega. Leia o resto deste post »

Doppelgänger

Publicado: 17 17UTC julho 17UTC 2011 em Contos
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Fait accompli, uma delas acordou satisfeita: a glória de um homicídio pleno, sem a vergonha do suicídio gorado.

Vampiricadente

Publicado: 13 13UTC julho 13UTC 2011 em Contos
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(Um conto de vampiro, sim. Mas é meu vampiro muito particular.)

Um diminuto coágulo. É o que resta. Impotente, apenas observo a mancha ora púrpura, ora carmesim, percorrer uma distância inexistente sobre o nó de meu indicador esquerdo, impulsionada pelo movimento nervoso de minhas mãos ao longo do teclado. E não consigo desviar minha atenção. Sinto, mais do que concluo, que o hematoma não poderia estar ali. Não se… Não se tudo não passasse de um sonho. Claro, devo ter me ferido enquanto dormia. Um sono inquieto possui a estranha habilidade de registrar sua passagem com dores musculares, pequenos ferimentos. E, no entanto, a mancha insiste em negar explicações racionais, como se algo nela fosse irreal. Como se a realidade estivesse destinada a se extinguir sempre que eu abrisse os olhos para este peculiar coágulo.

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(Mote e glosa.)

Sentou-se no banco verde de musgo, tudo em redor mais quieto e mais úmido agora que chegara ao âmago do jardim.

— Lygia Fagundes Telles, “A mão no ombro”

Havia um jardim com um só banco de concreto, branco e frio, úmido, de uma umidade verdoenga de musgo. Ele sentou-se nesse bloco único — sobras de realidade —, desamarrou os sapatos, despenteou o cabelo, desabotoou a camisa e desligou o marcapasso. Deitou-se e esperou, qualquer coisa, qualquer evento, de olhar fixo nas nuvens cada vez mais brancas, luminosas, próximas. Leia o resto deste post »